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  • 13/08/2017
  • 08:11
  • Atualização: 08:26

Sem paizão ou paizinho, apenas pai

Os tempos estão mudando e cada vez mais os pais querem assumir as responsabilidades e terem direito à participação efetiva na vida dos filhos

Jairo Júnior é pai de Catherine | Foto: Guilherme Testa

Jairo Júnior é pai de Catherine | Foto: Guilherme Testa

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  • Anália Köhler

Distribuir charutos na porta do hospital, registrar a criança e voltar normalmente ao trabalho. Esse era o papel do “pai provedor” quando nascia um filho, há nem tanto tempo assim. Da água ao vinho, hoje “pai que é pai” quer mais é estar com olheiras e a cara amassada, provas de que viveu mais uma noite em claro compartilhando os cuidados com o bebê. Superpai? Paizão? “Sou pai e ponto. Sem adjetivos”, sintetiza Fabrício Escandiuzzi, 41 anos, pai adotivo de Luísa e editor do blog Diário do Papai, de Florianópolis.

Difícil crer em tamanhas mudanças culturais em espaço de tempo tão curto. É olhar para trás e ver que a sociedade não condenava os homens que buscavam outras parceiras durante o puerpério. Enquanto a mulher, sozinha, centralizava o foco de sua vida na criança, não restava tempo para cuidar de si, menos ainda para dar atenção ao marido. E hoje, não só são divididas as noites “não” dormidas como já se fala em licença-paternidade de 20 dias, pré-natal do parceiro e até em “Semana do Aleitamento Paterno”, como sugere o pediatra paulista Moises Chencinski, 60, criador do movimento Eu Apoio o Leite Materno e do consultório Amigos da Amamentação, em parceria com o médico Marcus Renato de Carvalho. “Aleitamento é oferecer o leite, amamentar é oferecer o seio. Por isso se fala em aleitamento materno, que até parece redundância, mas não é”, explica.

O jornalista, em seu blog, lembra de um comercial da década de 80 que fez muito sucesso na época, premiado com o troféu Imprensa, que incentivava os pais a serem mais presentes na vida de seus filhos. O slogan era: “Não basta ser pai, tem que participar”. Este “ter que participar”, da época, para Fabrício, soa como ser um “pai que ajuda... quando pode”, o que contraria as transformações culturais que vêm sendo percebidas na sociedade. Agora o pai não quer mais ocupar o papel de mero coadjuvante.

Três dias foi o tempo – ou prazo – que Fabrício Escandiuzzi teve para se preparar para a chegada da Luísa. Aos 41 anos, “acabei me tornando pai em tempo integral”. E sentencia: “pai é a minha função”. Assustado com uma adoção que não acreditava que ocorresse de forma tão rápida, “não tínhamos nada: nem cama, roupas, sequer uma meia para colocar naquele pezinho”, conta.

O casal adotou Luísa, na época com 22 dias. Do susto inicial nasceu o blog www.diariodopapai.com.br, onde Fabrício descreve cada momento, conquista, desafios e inseguranças. “Montei um blog pra contar isso. Acabou tendo repercussão interessante mesmo”.

E há pais que adotam e pais que são adotados. Aos 55 anos, o corretor Marco Fernandez conta que faz três anos do momento em que ele foi apadrinhado por um menino de 12 anos na Instituição Amigo de Lucas, em Porto Alegre. Hoje solteiro e morando com a mãe, Marco conta que o menino o chama de pai, sua mãe chama de avó, e que passam os finais de semana e as férias sempre juntos. “É muito gratificante poder dar opções de vida diferentes para uma criança com essa idade. Já estamos colhendo os frutos no nosso caminho. É uma bênção. Isso é verdadeiramente ser pai”, sintetiza.

“A prova de que eu estava registrando tudo: a Lavínia nasceu às 11h14min e a foto foi publicada no grupo às 11h14min44s”, conta o pai Leonardo Barcellos, publicitário, antecipando que a sua história junto a Tiele Dornelles, 25, “foi bem louca”. Ele conta que ela, com menos de 50% de chances de engravidar, fazia de vez em quando, despretensiosamente, algum exame de gravidez. “A gente não acreditava que um dia poderia ter um bebê”, diz ele, relembrando o susto. “Até hoje eu lembro da primeira vez que ouvi o coraçãozinho dela batendo. Aquele ‘puf, puf’ ecoa em mim até hoje”, conta. “Daquele barulhinho pra frente, minha vida de pai começou”. Leonardo fez o pré-natal em Sapucaia do Sul com Tiele. “Eu fazia as perguntas mais idiotas do mundo”, conta ele, se dizendo o fiscal da parceira. “Vamos lá, amor, come legumes, come frutas!”. O braço do Leonardo tem uma tatuagem com uma pergunta que ele se faz todos os dias: Como você está se sentindo hoje? E ele responde: “Me sinto família. Ser pai é um elo que se cria”.

“O começo foi assustador. Na primeira semana não dormi. Ficava acordado todo o tempo, só olhando pra ela”, conta o Jairo, que experimentou a paternidade aos 44 anos. Ele diz que ficou quatro dias sem dormir em nenhum momento. Com Catherine completando quase um mês de vida, só agora ele se permite começar a relaxar. “Durante a semana ela levanta. No final de semana é a minha vez”, conta o pai sobre o revezamento com a companheira nas noites de choro, lembrando que quer aprender tudo sobre como cuidar da filha. “Troco, dou o banho. Vestir ainda apanho um pouquinho”, assume. Quando Catherine chora, Jairo relata que a coloca sobre o peito e ela se acalma. “Daria pra fazer tudo sozinho se tivesse mais tempo”, conclui, encantado com o fato de todo dia ter novidade na relação com o bebê.

“O Nei faz tudo. Dá banho, faz dormir, dá a janta. Ela é apaixonada pelo pai”, conta a companheira Fernanda Queiroz. Nei Xavier Guatimosim, 31 anos, diz que a chegada da Ana Laura, hoje com quase dois anos, não foi planejada mas mesmo assim participou ativamente da gravidez e dos primeiros cuidados com o bebê. “Fiquei uma semana de licença paternidade para ajudar a Fernanda. Ser pai era meu sonho”, conta. Dos momentos com a filha, o que Nei mais curte são as primeiras horas da manhã. “Às 7 horas ela chega na nossa cama e fica chamando: ’acóida, papai’...” Fernanda lembra que os dois são muito ligados. “E brincar na pracinha é só com o papai”, emenda. Sobre a participação na rotina dos filhos, ele acha que ainda existem muitas barreiras culturais. “Quando saímos, não posso trocar as fraldas da Ana Laura porque os trocadores ficam nos banheiros femininos”, lamenta.

Fui avô antes de ser pai”, conta Arlei Ribeiro da Silva, 45 anos, pai de Ariely, hoje com dois meses de idade. “Desde muito cedo eu tinha como projeto de vida ser pai”, destaca, “mas com os anos passando, já nem contava mais com isso”. A companheira, Simone Borges, de 41, mãe de três filhos e avó de duas crianças de outro casamento, também não tinha planos para mais um filho. “Meu desejo estava arquivado, até que um dia, no trabalho, eu descia as escadas quando li no celular a mensagem de que ela estava grávida. Quase caí. Precisei ser amparado”, resume Arlei. Hoje, ele conta que apesar da rotina de trabalho, das 12h às 22h , chega em casa preparado para o revezamento com Simone. “Sempre que ela precisa de mim, levanto, embalo, troco fralda. Não me sinto cansado com isso”. E conclui: “Vejo amor nos olhinhos dela. Não tem o que pague no mundo saber que ela me conhece e sabe que eu estou ali”.

Pois tanto faz qual seja a idade ou a situação familiar de cada um: Jairo Júnior, 44 anos, pai de Catherine; ou Nei Xavier Guatimosin, 31, pai de Ana Laura; Leonardo Barcellos, 30, pai de Lavínia; Fabrício Escandiuzzi, 41, pai de Luísa; ou do Arlei Ribeiro da Silva, 45, pai de Ariely; ou ainda Marco, 55, apadrinhado há três anos por um menino de 15. Comum a todos foi perceber a mesma vontade de aprender, de ensinar e de se conectar com o seu filho.