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Porto Alegre, quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

  • 17/07/2017
  • 17:21
  • Atualização: 18:19

Eventos em Porto Alegre relembram os 200 anos da morte de Jane Austen

Escritora morreu aos 42 anos, vítima do mal de Addison

Escritora morreu aos 42 anos, vítima do mal de Addison | Foto: Cassandra Austen / Reprodução / CP

Escritora morreu aos 42 anos, vítima do mal de Addison | Foto: Cassandra Austen / Reprodução / CP

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  • Luciana Vicente

Para marcar os 200 anos da morte de Jane Austen, centenas de atividades serão promovidas por seus admiradores espalhados pelo mundo. Em Porto Alegre, nesta terça, no Instituto de Letras da Ufrgs (Bento Gonçalves, 9500), das 10h às 12h, será realizada uma Sessão de Pôsteres, com alunos de Literatura Inglesa apresentando suas pesquisas sobre a escritora. Na Biblioteca Pública Josué Guimarães (Erico Verissimo, 307), das 15h às 18h30min, poderão ser conferidas Sessões de Comunicações com a participação de alunos do Programa de Pós-Graduação em Letras da Ufrgs e de egressos do programa que defenderam dissertações e teses sobre a autora do clássico "Razão e Sensibilidade".

Para finalizar as homenagens, das 19h às 21h, também na biblioteca, terá mesa-redonda com quatro especialistas. Em vídeo-conferência Deborah Simionato, direto de Londres, e Carol Chiovatto, de São Paulo, participam, e, em forma presencial, Bianca Rossato e Ana Iris Ramgrab complementam a conversa com o público. Deborah, com mestrado na Ufrgs, mora em Londres, e mantém postagens em blogs sobre sua relação com os lugares onde Jane Austen morou e apresentou em seus livros. Carol, doutoranda da USP, é responsável pela mais nova tradução de "Orgulho e Preconceito", pela Giz Editorial. Bianca, doutoranda em Letras/Ufrgs, também é professora do IFSul (Campus Passo Fundo), e Ana é mestre em Literaturas em Língua Inglesa/Ufrgs e pesquisadora de Austen há 20 anos. Na mediação e coordenação do evento está Elaine Indrusiak, professora do Departamento de Línguas Modernas e do Programa de Pós-Graduação em Letras/Ufrgs.

"Orgulho e Preconceito" é talvez a obra mais famosa da autora e vendeu cerca de 20 milhões de cópias em todo o mundo e ganhou adaptações cinematográficas. A obra, em domínio público, continua despertando interesse em leitores e editoras. No Brasil, será lançado uma coletânea de correspondências escritas para a autora, pela editora Martin Claret. Os textos foram traduzidos pela doutoranda em Estudos Literários em Inglês da Universidade de São Paulo (USP) Renata Cristina Colasante. A editora Nova Fronteira publicou também, neste ano, um box com três das principais obras de Austen. Batizada de "Grandes obras de Jane Austen", inclui "Orgulho e Preconceito", "Razão e Sentimento" e "Emma".

Professora comenta o legado de Austen

Elaine Indrusiak comenta que o foco de todas as pesquisas apresentadas é na atualidade da obra de Jane Austen, passados esses 200 anos de sua morte. Diversos trabalhos abordam a obra da autora em paralelos com adaptações e apropriações para outras mídias, como o de Bianca Rossato com uma série de postagens no Youtube sobre Jane Austen.

O que você percebe como a característica mais importante na obra de Jane Austen?

Pessoalmente, adoro a ironia sutil e elegante do texto de Jane Austen, uma característica que acho que deve ser sempre enfatizada. Em grande parte, talvez seja justamente esse o motivo para a permanência da sua obra, além é claro, das incontornáveis questões sobre o casamento, o papel da mulher na sociedade, e hierarquias sociais calcadas em meras convenções, e não em valores sólidos.

Jane Austen e o feminismo, consegues estabelecer uma relação?

A questão do casamento é, de fato, central em Austen. A autora é reconhecida como uma protofeminista, e mesmo Virginia Woolf apontava para o caráter revolucionário da sua obra pelo simples fato de discutir de forma aberta e crítica a posição subalterna da mulher e a institucionalização do casamento como mero contrato de manutenção de bens e posições sociais. É justamente a centralidade do casamento na estruturação da sociedade inglesa do período regencial que torna a obra de Jane Austen tão representativa do espírito da época; não era ela quem era obcecada pelo casamento - tanto que não se casou -, mas sim a sociedade em que estava inserida e que retratou de forma absolutamente realista e crítica, mas sem ser mordaz ou amarga.

Pode-se dizer que "o matrimônio é o ponto tradicional das comédias da autora, mas o que realmente a interessa é o desentendimento ou equívocos"?

Nesse sentido, os "desentendimentos e equívocos" em torno das questões matrimoniais acabam revelando estruturas e valores bem mais profundos e arraigados do que se espera ver discutido em "literatura para mocinhas". Curiosamente, essa questão "feminista" (entre aspas porque vejo como algo muito mais amplo do que a simples questão de direitos das mulheres, pela própria centralidade do casamento como manutenção da hierarquia social inglesa) não está ultrapassada, já que liberdade, direito à propriedade e voz ainda são luxos ou mesmo sonhos para mulheres em diversas culturas ao redor do mundo. E mesmo em contextos em que tais direitos já estão garantidos, a pressão pela realização feminina via casamento e/ou maternidade ainda é muito presente. Prova disso é a grande popularidade de muitas adaptações de obras de Jane Austen para cinema, TV e outras mídias; até mesmo as mulheres independentes do século XXI ainda conseguem se identificar com Elizabeth Bennet e outras grandes personagens de Austen.

Se fosse indicar, qual seria a primeira obra da escritora para leitura?

A porta de entrada ao universo de Austen é mesmo "Orgulho e Preconceito" pelo vulto que essa obra tomou na cultura ocidental, particularmente nos últimos 20 anos. Mas eu também costumo recomendar a leitura de "Northanger Abbey" a leitores mais experientes que gostam de analisar como grandes escritores conseguem fazer (boa) crítica literária por meio de ficção.

Um pouco da trajetória de Jane Austen

Filha do reverendo George Austen e de Cassandra Austen, Jane nasceu dia 16 de dezembro de 1775, em Hampshire, na Inglaterra.  Foi a segunda mulher dentre sete irmãos. Quando completou oito anos, foi enviada a um internato – junto de sua irmã Cassandra, sua melhor amiga durante toda a vida – para receber a educação formal. Seu contato com os livros foi na biblioteca da família. Na adolescência, Jane Austen escrevia comédias, e seu primeiro livro bem acabado foi "Lady Susan", escrito em forma epistolar, quando a autora tinha 19 anos. Em 1797, já havia escrito dois romances, "Razão e Sensibilidade" e "Orgulho e Preconceito". Oferecidos pelo pai da inglesa a um editor, os livros foram rejeitados. A publicação dos títulos se realizou somente em 1811 e 1813, respectivamente, assinados com o codinome de “uma senhora”.

Em romance como "Emma", "Mansfield Park" e "A abadia de Northanger", buscou retratar a sociedade da época e a busca da mulher pelo melhor casamento, como única forma de ascender socialmente. As aparências são apresentadas pelos diálogos e contradições dos personagens, em um texto carregado de ironia. A proximidade de seus textos com sua vida levam a uma leitura autobiográfica da sua, e mesmo nunca tendo se casado, acredita-se que teve namorados. Quando jovem, chegou a aceitar um pedido de casamento e, em seguida, fugiu. Morreu em 18 de julho de 1817, aos 42 anos, vítima do mal de Addison. Deixou inacabado o romance “Sanditon”, pois sua saúde piorou. A última data em que revisou o manuscrito (março de 1817) pode ser vista no documento pertence ao King’s College, em Cambridge.