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  • 05/10/2017
  • 08:32
  • Atualização: 09:16

Tradição literária é celebrada na Jornada de Passo Fundo

Debates sobre clássicos da literatura envolvem leitores e letristas

Debates sobre clássicos da literatura envolvem leitores e letristas | Foto: Gelsoli Casagrande / Ascom UPF / CP

Debates sobre clássicos da literatura envolvem leitores e letristas | Foto: Gelsoli Casagrande / Ascom UPF / CP

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  • Correio do Povo

Celebração talvez seja a palavra que melhor define a segunda noite de debates da 16ª Jornada Nacional de Literatura. Em um movimento de reverência, o público que esteve presente no Espaço Suassuna nessa quarta-feira, pôde ver uma Jornada, que sempre teve como característica principal dialogar com a atualidade, se abrir também para homenagear a tradição, revivendo a trajetória e a obra de quatro grandes escritores brasileiros: Moacyr Scliar, Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. Os convidados para prestar essa homenagem foram os escritores Ricardo Silvestrin, Bráulio Tavares, Cintia Moscovich e Nádia Battella Gotlib.

A mesa “Centauro, pedra, rosa e estrela: Scliar, Suassuna, Drummond, Clarice” – nome relacionado a grandes obras dos autores homenageados: centauro, de "O centauro no jardim", de Moacyr Scliar; pedra, uma alusão ao "Romance da Pedra do Reino", de Ariano Suassuna; rosa, uma referência à obra "A rosa do povo", de Carlos Drummond de Andrade; e estrela, do livro "A hora da estrela", de Clarice Lispector – foi, segundo Augusto Massi, um dos coordenadores de debates, uma reunião de especialistas falando de especialistas. Massi, ao lado de Felipe Pena e Alice Ruiz, conduziu o público a um mergulho não apenas pelo trabalho desses escritores, mas também por passagens curiosas sobre suas vidas.

Considerada a principal biógrafa de Clarice Lispector, Nádia Battella Gotlib foi apresentada por Massi como pioneira. Ela iniciou falando sobre o espetáculo "Não me toque estou cheia de lágrimas - Sensações de Clarice Lispector", de GEDA Cia de Dança Contemporânea, que abriu a segunda conferência da Jornada. "O espetáculo que vimos aqui iniciou retratando a família de Clarice, seus pais e irmãs quando ela ainda nem tinha nascido. Nesse período, provavelmente, a mãe estava grávida dela", afirmou. Como o próprio nome traduz, o espetáculo não contou com palavras, apenas com movimentos, música e essência, sentimento que ajudou o público a construir um livro da história de Clarice através das cenas vivas e físicas ali presentes. Mais uma vez, a literatura foge aos limites.

Isso tudo para Nádia trazer a profundidade intimista que é Clarice: "há ali um desbravamento. Quando embarcamos com ela, nunca sabemos onde vai dar", destacou. Além de falar de detalhes sobre uma das escritoras mais aclamadas, Nádia também trouxe o DNA Lispector. As duas irmãs de Clarice, Elisa e Tania, têm suas produções e já publicaram livros, principalmente Elisa, que tem 10 obras – sete romances e três livros de contos. Para a biógrafa de Clarice, ter contato com isso foi uma fonte rica e gratificante. "Lembro de quando me mostraram um álbum de fotografias da família. "Era um álbum grosso, de capa de couro e fecho já oxidado. A primeira foto que eu vi foi a dos avós", lembrou ela.

Cintia Moscovich era amiga pessoal do Scliar e é profunda conhecedora da obra e das temáticas do autor, inclusive contribuiu com a obra O viajante transcultural: leituras da obra de Moacyr Scliar, organizada por Regina Zilberman e Zilá Bernd. “Scliar tinha um desejo incontrolável de escrever, com cerca de 100 livros. Ele ajudava a todos. Talvez escrevesse para tentar corrigir as coisas erradas do mundo. E escrevia em qualquer lugar. Tinha uma concentração rápida e sabia de todos os assuntos do mundo, além de escrever de forma muito elegante. Impressionante”, revelou a escritora.

Sobre Scliar, Cintia conta que ele era um homem “politicamente correto”, cordial e generoso. “Nunca ouvi nenhuma história sobre Scliar que tivesse algum caso de palavras ásperas. Só ouvi histórias de generosidade”, observou Cintia.

Pesquisador de literatura fantástica que transita pela ficção científica, pela literatura de mistério e também pela cultura da oralidade, Bráulio Tavares é um dos grandes nomes da literatura de cordel da atualidade. É também um grande conhecedor da trajetória crítica e criativa de Ariano Suassuna que foi, para ele, além de um iconoclasta, também um grande professor capaz de desconstruir os assuntos mais sérios e ao mesmo tempo continuar sério. “O Ariano que conheci era uma usina de dinamismo verbal”, contou. Tavares brincou ainda com o jeito enfático que Suassuna tinha de falar ao lembrar que A pedra do reino é, na opinião dele, o romance com maior quantidade de pontos de exclamação por página. “Ariano tinha essa coisa de ser muito voltado para a fala, para a oralidade, mas ao mesmo tempo ele tinha uma escrita muito metódica. Ele era lento e meticuloso para escrever, mas para falar, era uma cachoeira”, disse.

“Um poeta difícil”, disse o também poeta Ricardo Silvestrin sobre Carlos Drummond de Andrade. Conhecido por manipular as palavras escritas, faladas e cantadas, Silvestrin lembrou as várias faces de Drummond, seja como poeta, como contista e como cronista. Uma delas era a de um escritor que considerava inadmissível que alguém se baseasse em sua obra. “‘Vá criar sua própria poesia’, dizia. Para ele, a poesia era o que ainda estava para ser escrito‘”, contou Silvestrin. De acordo com o escritor, o próprio poeta acreditava que o fato de ter sido antes de tudo cronista fez com que as pessoas prestassem atenção na sua poesia, a qual, para Silvestrin, trazia o olhar cronista de Drummond. “Drummond tinha esse olhar geral para as coisas, esse olhar de cronista, que está muito presente na obra dele. Nada escapa da sua poesia, ele tinha um olhar para o mundo”, ressaltou.

Sobre a Jornada

A 16ª Jornada Nacional de Literatura e a 8ª Jornadinha Nacional de Literatura são promovidas pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pela Prefeitura de Passo Fundo. Os eventos contam com os patrocínios do Banrisul, da Corsan, da Ambev, da Companhia Zaffari & Bourbon, da Ipiranga, da Panvel, da SulGás, da Triway e da TechDEC; com o apoio cultural da BSBIOS, do Sesi e da Coleurb; patrocínio promocional da Capes, da Fapergs, da Italac e da Oniz; com a parceria cultural do Sesc; financiamento do Governo do Estado – Secretaria da Cultura – Pró-cultura RS LIC e realização do Ministério da Cultura. Confira a programação no site.